Luis Maluf

JANELAS – APOLO TORRES

A nossa casa não nos define. Mas o que a gente faz dela é como contamos nossa história.

Cada parede é cenário da nossa trajetória. A tinta e o descascado marcam a nossa linha do tempo.

Um convite que o artista Apolo Torres faz nessa exposição solo, pela segunda vez na Luis Maluf Art Gallery. De forma inversa, ele já nos nomeia como visita na chegada e nos convida a entrar no seu mundo, casa-estúdio, família e amigos.

A visão de dentro da janela é, de fato, a parte mais íntima deste artista: sua vida.

De pronto já somos apresentados para a filha de Apolo, Nina, que representa também a primeira relação do artista com arte, a pureza das ideias, a liberdade da imaginação, a brincadeira de luz e sombra, nosso primeiro desenho que forma o traço de quem somos como ser humano.

Ao pintar um mural, Apolo baseia-se no contexto de fora, no local ou cidade que está inserido. Na tela, o contexto vem de dentro. Cada cômodo é uma maneira inteligente do artista contar suas lembranças. Curioso apreciar em obra, o próprio estúdio do artista, que foi palco para a produção de toda a exposição – o ato de expor-se de Apolo.

Ainda que em um enquadramento autobiográfico, as situações são comuns a todos nós. A memorabilia é familiar: um personagem que lembra uma pessoa que a gente já conheceu, um objeto que a gente já viu na casa de alguém. Atinge um ponto no cérebro que conecta com a nossa infância, rotina e com a nossa sensação de conforto, aconchego – afinal estamos em casa.

A arte de Apolo é bem sucedida nisso, conserva o espaço-tempo que amamos. Contempla a textura de cada momento, com certo saudosismo, nas obras pintadas à óleo com estilo expressivo-realista, sua assinatura registrada. Identidade que é revelada à luz natural com ar bucólico e paleta primaveril, entre roxos e verdes.

A passagem registrada em tela é intensa de significado, em recortes de profunda essência e detalhes. Não é apenas o registro de uma pessoa, é a imagem de um estado de espírito peculiar e característico. É um espelho que você se reconhece e acaba entendendo melhor quem é por dentro.

Ao pisar para fora, um horizonte se abre. A luz se expande como o nosso universo. A janela dá margem para um campo infinito de descobertas, de exploração territorial e também de percepção cotidiana.

As referências são próximas e também variadas, globais. Das paredes rococós com pixo no centro de São Paulo, com aspecto mais urbano, a terrenos distantes daquela cidade do interior, inspirada em paisagens que a gente já viu, mas, de novo, não lembra bem aonde.

Não há drama, expectativa de desfecho final ou objetivo de chegar a algum lugar.

A experiência é a viagem.

Janelas é a fotografia capturada pelo nosso olhar. É um convite a enxergarmos para dentro e para fora.

 

Texto: Marina Bortoluzzi