{"id":19411,"date":"2025-11-14T14:13:57","date_gmt":"2025-11-14T17:13:57","guid":{"rendered":"https:\/\/luismaluf.com\/current\/delson-uchoa-boca-de-sol\/"},"modified":"2025-11-14T14:13:57","modified_gmt":"2025-11-14T17:13:57","slug":"delson-uchoa-boca-de-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/past\/delson-uchoa-boca-de-sol\/","title":{"rendered":"Delson Uch\u00f4a | Boca de Sol"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row thb_full_width=&#8221;true&#8221; el_class=&#8221;align-justify&#8221;][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_column_text css=&#8221;&#8221; animation=&#8221;animation left-to-right&#8221;]\n<h1>Exposi\u00e7\u00e3o Individual<\/h1>\n[\/vc_column_text][vc_separator][vc_column_text css=&#8221;&#8221; animation=&#8221;animation bottom-to-top&#8221;]\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>15 de novembro de 2025 a<br \/>\n18 de dezembro de 2025<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Luis Maluf Galeria<\/em><br \/>\n<em>Rua Brigadeiro Galv\u00e3o, 996<\/em><br \/>\n<em>Barra Funda, S\u00e3o Paulo, SP<\/em><\/p>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243; css=&#8221;.vc_custom_1678972569582{padding-left: 30px !important;background-position: center !important;background-repeat: no-repeat !important;background-size: contain !important;}&#8221;][vc_empty_space mobile_height=&#8221;30px&#8221; height=&#8221;0px&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221; animation=&#8221;animation bottom-to-top&#8221;]\n<h2 style=\"text-align: center;\">Boca de Sol<br \/>\nDelson Uch\u00f4a<\/h2>\n<p>Boca de Sol prop\u00f5e a pintura como organismo luminoso, um corpo que engole a cor e a converte em incandesc\u00eancia. Entre a geometria e o calor, o gesto e a febre, Delson Uch\u00f4a fabrica superf\u00edcies em metabolismo luminoso. Sua obra digere o legado modernista antropof\u00e1gico e o devolve como luz localizada, uma energia que nasce da geografia e se distribui como clar\u00e3o. Ver e engolir se tornam o mesmo ato.<\/p>\n<p>Morando em Alagoas \u2014 um dos centros de maior luminosidade do Brasil \u2014, o artista desenvolve o que ele pr\u00f3prio denomina autofagia: um processo em que a pintura devora a si mesma, digere o pr\u00f3prio tempo e o transforma em nova mat\u00e9ria. Essa opera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica, que faz das obras organismos em constante regenera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m impulsiona a leitura curatorial de Boca de Sol: uma pr\u00e1tica que pode ser pensada como solarfagia, quando a luz passa a ser a subst\u00e2ncia devorada. Aqui, \u00e9 o sol que alimenta a pintura; ele a faz ferver, secar, queimar, arder em cor. A solarfagia \u00e9 o modo como a obra se deixa atravessar pela geografia, metabolizando o calor, a radia\u00e7\u00e3o e o brilho, ultrapassando o limite vis\u00edvel.<\/p>\n<p>No Brasil, a no\u00e7\u00e3o de antropofagia foi convertida pelo modernismo em met\u00e1fora de identidade nacional. A ideia de devorar o outro e transform\u00e1-lo em cultura \u201cbrasileira\u201d criou um mito de origem que acabou refor\u00e7ando hierarquias e silenciando as cosmologias que o gesto dizia evocar. Em Boca de Sol, essa heran\u00e7a \u00e9 revisitada de modo obl\u00edquo. A autofagia de Uch\u00f4a n\u00e3o devora o outro, mas o pr\u00f3prio tempo. A solarfagia se aproxima mais de uma irradia\u00e7\u00e3o, um processo de emana\u00e7\u00e3o. Se o modernismo transformou o ato de comer em discurso de poder, aqui o metabolismo da pintura dissolve o poder no calor. O que se digere n\u00e3o \u00e9 diferen\u00e7a cultural, e sim luz, cor, poeira, o pr\u00f3prio espa\u00e7o do mundo.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o com a luz se aproxima de uma heli\u00f3filia \u2014 o amor radical pelo sol e por seus efeitos, mas tamb\u00e9m por tudo o que cresce sob sua influ\u00eancia. A pintura de Uch\u00f4a parece possuir uma consci\u00eancia heliotr\u00f3pica, uma intelig\u00eancia compartilhada entre seres, plantas, minerais e pessoas. A sabedoria das fibras, dos tran\u00e7ados e das mat\u00e9rias vegetais que comp\u00f5em suas obras manifesta essa escuta ampliada, uma escuta que inclui o territ\u00f3rio como agente e n\u00e3o como cen\u00e1rio. O piripiri, o ouricuri, a carna\u00faba e outras fibras regionais s\u00e3o corpos pensantes, dotados de mem\u00f3ria e plasticidade, que participam ativamente da produ\u00e7\u00e3o das formas. A obra de Delson \u00e9, portanto, um sistema coletivo em que o gesto do artista se entrela\u00e7a ao trabalho artesanal, \u00e0 ecologia e \u00e0s intelig\u00eancias vegetais que moldam a cor, o relevo e o ritmo da pintura.<\/p>\n<p>Nessa dimens\u00e3o das tramas e das fibras, ressoa uma reflex\u00e3o em conson\u00e2ncia com o pensamento de D\u00e9n\u00e8tem Touam Bona e sua no\u00e7\u00e3o de sabedoria dos cip\u00f3s \u2014 uma filosofia da liga\u00e7\u00e3o, do entrela\u00e7amento, do conhecimento que cresce em espiral. Essa correspond\u00eancia vibracional nos faz perceber que s\u00e3o as fibras, com sua flexibilidade, resist\u00eancia e mem\u00f3ria, que se expandem em dire\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis, tensionando o espa\u00e7o e instaurando novas rela\u00e7\u00f5es entre mat\u00e9ria e tempo. Mais do que suportes, elas atuam como infraestruturas de pensamento, linhas que articulam mundos, geografias e modos de saber.<\/p>\n<p>O processo de Delson Uch\u00f4a se desenvolve tamb\u00e9m a partir do contato com artistas e artes\u00e3os que produzem as fibras e artesanias presentes em suas obras. Ainda que nem sempre nomeadas, essas presen\u00e7as comp\u00f5em o campo sens\u00edvel do trabalho. H\u00e1, em sua pr\u00e1tica, um reconhecimento impl\u00edcito das m\u00faltiplas m\u00e3os e saberes que sustentam a materialidade da pintura, uma aten\u00e7\u00e3o aos modos de fazer que o antecedem e o ultrapassam.<\/p>\n<p>Essas rela\u00e7\u00f5es, contudo, n\u00e3o est\u00e3o imunes \u00e0s for\u00e7as da globaliza\u00e7\u00e3o. Cidades inteiras do Nordeste e de outras partes da Am\u00e9rica Latina v\u00eam sendo transformadas pela l\u00f3gica de um consumo exacerbado, movido por materiais sint\u00e9ticos, produtos baratos e descart\u00e1veis. O pl\u00e1stico e outras subst\u00e2ncias industriais ocupam o lugar das fibras naturais, dissolvendo tradi\u00e7\u00f5es de tran\u00e7ado e cestaria que antes mantinham v\u00ednculos diretos com o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Na trajet\u00f3ria de Delson Uch\u00f4a h\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o constante a esses deslocamentos. Seu trabalho observa como essas transforma\u00e7\u00f5es materiais afetam a paisagem, a cor e o ritmo do cotidiano, e como a est\u00e9tica local \u00e9 lentamente absorvida por circuitos industriais que uniformizam e esvaziam as singularidades do fazer. Ao retornar a certas mat\u00e9rias e modos de feitura, o artista evidencia as tens\u00f5es entre a vitalidade dos saberes manuais e o impacto do consumo acelerado sobre o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A essa consci\u00eancia compartilhada soma-se uma intui\u00e7\u00e3o quase cient\u00edfica. As resinas, pigmentos e vernizes funcionam como neurotransmissores da luz, compondo uma rede sensorial entre humano, planta e mineral. \u00c9 um pensamento que se aproxima das hip\u00f3teses de Sidarta Ribeiro sobre as m\u00faltiplas formas de consci\u00eancia distribu\u00eddas na natureza. A pintura realiza, aqui, uma esp\u00e9cie de fotoss\u00edntese po\u00e9tica, transformando luz em cor e cor em energia.<\/p>\n<p>H\u00e1, no interesse de Delson Uch\u00f4a pela luz e pela mat\u00e9ria, uma aproxima\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com saberes ancestrais que reconhecem nas plantas e subst\u00e2ncias caminhos para outras percep\u00e7\u00f5es, modos de ver luz e cor que n\u00e3o dependem do prisma solar. No entanto, \u00e9 preciso reconhecer que essas formas de conhecimento pertencem a contextos espec\u00edficos enraizados em cosmologias ind\u00edgenas e afro-amer\u00edndias que n\u00e3o podem ser deslocadas ou apropriadas.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o que se estabelece aqui \u00e9 de fric\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de equival\u00eancia. O trabalho de Uch\u00f4a se situa nesse limiar, onde a busca por compreender a luminosidade das coisas convive com a consci\u00eancia das dist\u00e2ncias e dos limites que separam diferentes regimes de saber.<\/p>\n<p>Em Uch\u00f4a, a cor tem temperatura, densidade e localiza\u00e7\u00e3o. A geografia se torna subst\u00e2ncia, e a mat\u00e9ria age como papiro vegetal, um suporte vivo colhido nas margens, onde a natureza \u00e9 escrita e lida em brilho. Sua pintura \u00e9 uma arqueologia expandida da luz, uma investiga\u00e7\u00e3o sobre como o sol opera nas fibras, nos corpos e nas coisas. Sua forma\u00e7\u00e3o em medicina deixa rastros na pr\u00e1tica art\u00edstica. A pintura \u00e9 um tecido vivo sujeito a enxertos, cicatriza\u00e7\u00f5es e reaberturas. Cada retorno \u00e0 obra \u00e9 um procedimento cl\u00ednico: oxigenar a cor, reativar a superf\u00edcie, introduzir resinas e pigmentos como soro em uma carne luminosa. Uch\u00f4a entende o ateli\u00ea e as paisagens ao redor como descampados heliotr\u00f3picos \u2014 lugares onde o corpo sai do mofo e busca conhecimento solar.<br \/>\nO artista n\u00e3o pensa sua trajet\u00f3ria por fases, mas por parentescos: trabalhos s\u00e3o primos e primas, fam\u00edlias erguidas por conflu\u00eancias. Um quadro dos anos 1990 pode receber novas camadas em 2005, 2015 ou 2024. Assim, cada pintura se mant\u00e9m em tr\u00e2nsito, arquivando suas pr\u00f3prias metamorfoses. H\u00e1 tintas caducas que se tornam exaltadas, cores desmaiadas que despertam, como se o tempo respirasse dentro da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Em Boca de Sol, essa pintura de metabolismo aberto \u00e9 tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o sobre os limites da vis\u00e3o. Que luz \u00e9 essa que n\u00e3o passa pelo prisma solar, mas ainda assim incide, vibra e afeta? Durante este processo, Delson Uch\u00f4a recordou a obra em n\u00e9on de Bruce Nauman, The True Artist Helps the World by Revealing Mystic Truths [O verdadeiro artista ajuda o mundo revelando verdades m\u00edsticas] (1967). Com o tempo, ele reformulou essa frase \u00e0 sua maneira: \u201cO verdadeiro artista \u00e9 uma fonte luminosa para se espantar.\u201d Mais do que uma cita\u00e7\u00e3o, essa lembran\u00e7a parece condensar o princ\u00edpio que move sua pintura \u2014 a busca incessante por uma luz que n\u00e3o se explica.<\/p>\n<p>Sem negar sua gera\u00e7\u00e3o e as fontes que o formaram dentro da hist\u00f3ria da arte ocidental, como a geometria da Bauhaus, Uch\u00f4a cria uma coalis\u00e3o entre essa heran\u00e7a e a geometria popular do Nordeste. Sua pintura \u00e9 plana, expandida e objeto ao mesmo tempo, uma miragem que pensa o corpo como superf\u00edcie que queima, que sente e que se transforma. Em sua carnosidade, a pintura respira o sol do lugar e o devolve como clar\u00e3o.<\/p>\n<p>Ariana Nuala<br \/>\nLa Paz, Bol\u00edvia, 2025[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row thb_full_width=&#8221;true&#8221; thb_row_padding=&#8221;true&#8221; thb_column_padding=&#8221;true&#8221;][vc_column][vc_raw_html css=&#8221;&#8221;]JTVCc3Bfd3BjYXJvdXNlbCUyMGlkJTNEJTIyMTg1MTElMjIlNUQ=[\/vc_raw_html][\/vc_column][\/vc_row][vc_row thb_full_width=&#8221;true&#8221; thb_row_padding=&#8221;true&#8221; thb_column_padding=&#8221;true&#8221;][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;45px&#8221;][vc_separator css_animation=&#8221;left-to-right&#8221;][vc_empty_space height=&#8221;45px&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row thb_full_width=&#8221;true&#8221; thb_row_padding=&#8221;true&#8221; thb_column_padding=&#8221;true&#8221;][vc_column][vc_raw_html css=&#8221;&#8221;]JTNDcCUyMHN0eWxlJTNEJTIydGV4dC1hbGlnbiUzQSUyMGNlbnRlciUzQiUyMiUzRSUzQ2lmcmFtZSUyMHN0eWxlJTNEJTIyd2lkdGglM0ElMjAxMDAlMjUlM0IlMjIlMjBzcmMlM0QlMjJodHRwcyUzQSUyRiUyRm15Lm1hdHRlcnBvcnQuY29tJTJGc2hvdyUyRiUzRm0lM0Q2OG1UTlkzMzdQaSUyNmFtcCUzQnBsYXklM0QxJTI2YW1wJTNCYW1wJTI2YW1wJTNCdHMlM0QzMCUzQmFtcCUyNmFtcCUzQnFzJTNEMCUzQmFtcCUyNmFtcCUzQmFtcCUyNmFtcCUzQmxwJTNEMSUyMiUyMHdpZHRoJTNEJTIyODUzJTIyJTIwaGVpZ2h0JTNEJTIyNTQwJTIyJTIwZnJhbWVib3JkZXIlM0QlMjIwJTIyJTIwYWxsb3dmdWxsc2NyZWVuJTNEJTIyYWxsb3dmdWxsc2NyZWVuJTIyJTNFRmlsbCUyMGJyb3dzZXIlMjB3aW5kb3clM0MlMkZpZnJhbWUlM0UlM0MlMkZwJTNF[\/vc_raw_html][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><b>Exposi\u00e7\u00e3o Individual<\/b><br \/>\n15 de Nov 2025 \u2013 18 de Dez 2025<\/p>\n<p><em>Luis Maluf Galeria<br \/>\nRua Brigadeiro Galv\u00e3o, 996<br \/>\nBarra Funda, S\u00e3o Paulo<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18783,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-19411","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-past"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19411"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19411\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/luismaluf.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}