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UM DIA ANTES • Apolo Torres

“Se soubesse que o amanhã – tão como sonhado – não viria, o que você estaria fazendo hoje?”

Neste novo corpo de trabalho, me debrucei sobre a ideia de que todas as obras representam cenas que se passam em um mesmo dia. Os personagens, objetos e lugares não têm relação direta entre si, mas compartilham a contemporaneidade e o fato de estarem absortos, ignorantes dos importantes eventos que acontecerão no dia seguinte e, invariavelmente, vão afetar a todos.

Vivemos em constante tensão sobre que mudanças o amanhã trará. Seja por forças políticas, sociais ou naturais. Existe um certo temor de que seremos a geração que vai testemunhar a ruína de nossa civilização, seja ela causada por ação humana ou por forças naturais além do nosso controle. A pandemia do coronavírus nos deu um pouco de perspectiva sobre o que significa ver ruir, de uma hora para outra, o estilo de vida e costumes de uma sociedade.

Esta mostra traz uma inquietação e inconformismo com o que tem se chamado de “novo normal”. Como teremos, por algum tempo ainda – ou talvez permanentemente, que lidar com outra forma de nos relacionarmos. Apresenta, de forma quase nostálgica, o sentimento de viver sem saber o que nos aguardava. Por outro lado traz também a reflexão de que, justamente por não saber ou não possuir o poder de controlar tais acontecimentos, nos resta viver um dia após o outro, na luta por garantir a próxima refeição, o próximo trabalho, o próximo aluguel. Por não deixar morrer a memória dos que se foram. Por tentar fazer a nossa passagem representar algo de relevante para os nossos contemporâneos, e os que virão.

SOBRE O ARTISTA

Apolo Torres nasceu em 1986, em São Paulo.
Suas inclinação à arte vêm desde a infância, através de pinturas e desenhos. O pintor e muralista é formado em Desenho Industrial e estudou pintura na School of Visual Arts, em Nova York. Vivendo a vida inteira na cidade de São Paulo, de onde obtém suas influências e os valiosos ativos das trocas culturais, seu trabalho dialoga com a pintura clássica, street art e arte contemporânea.

Influenciado por desenhos animados, ilustrações de livros infantis e pelos grafiteiros de seu bairro, o artista afirma que seu intuito é transmitir a ação do tempo e as mudanças que resultam desta ação. Apolo monta projetos para suas composições e depois os transfere para as telas finais utilizando principalmente tinta acrílica e tinta óleo. Seu processo criativo baseia-se principalmente em experiências pessoais que são registradas fotograficamente e depois combinadas com representações simbólicas que induzem o espectador à sentimentos de introspecção, nostalgia e contemplação.

Sua obra resgata o compromisso – muito forte no século XVII – da racionalidade das características do mundo físico, com sua geometria e cores, em um tempo em que a arte quase sempre propõe uma fuga ou distração da realidade. Apolo acredita que o trabalho artístico é uma das melhores maneiras de refletir e compreender coletivamente o que nos circunda, em suas palavras “através do meu trabalho, procuro celebrar a vida como ela é, e não como poderia ser.”