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Residência Artística 2026

07 a 21 de Março de 2026

Galeria Luis Maluf
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP

Voragem e Vertigem

À beira do mar, diante da sua imensidão, vemos um movimento em espiral. Hipnotizante, esse redemoinho parece sugar tudo ao seu redor, arrastando diferentes matérias para o fundo. Por um momento, estamos suspensos no seu mistério, deslumbrados com a sua força. Antes de mergulhar, olhamos para esse abismo: ele nos olha de volta. Voragem é o nome desse fenômeno que emerge das profundezas das águas. Vertigem é essa sensação que nos inunda por meio da nossa própria imersão. Essas imagens nos dão pistas e nos aproximam da experiência vivida pelos artistas e curadores durante a 5ª edição da Residência Artística Luis Maluf.

Entre a força da voragem e a desorientação da vertigem, cada artista se dedicou a mergulhar na sua poética, investigando suas práticas e pesquisas. Esse mergulho, profundo e ora íntimo, ora partilhado, só pode ser possível com a tomada de fôlego. Para viver em voragem, é preciso, primeiro, reconhecer a existência desse movimento e, a partir dela, tomar fôlego diante do redemoinho que aqui surge como metáfora à prática artística. Decerto, diante da particularidade técnica, temática e territorial de cada um dos doze artistas, somada a nós três curadores, os diálogos são fugidios, produzindo avizinhamentos de acordo com proximidades ou distanciamentos, numa polifonia irregular.

Ainda assim, podemos apontar, a partir das obras, linhas de força que versam sobre paisagem e pertencimento, memória e fabulação, desejo e política dos afetos, resiliência e utopia. Em certos momentos, houve uma vertiginosa experimentação corporal, onde mãos, pele, gestos e materialidades estão cravados na superfície de suas pesquisas. Em outros, acolhe-se o turbilhão da voragem, num exercício de partilha e de silêncio, de inquietudes e de pulsação do novo, o qual nos leva a buscar novos horizontes e instaurar novas dúvidas que reverberarão para além deste momento de residência.

Nenhuma mostra dá conta de instanciar as minúcias da vivência em ateliê, na qual a imaterialidade do convívio e a contaminação coletiva, as atividades e os encontros propostos, não são representados senão pelo lampejo de uma vertigem. O desassossego transformador que é a voragem exige de nós respiro e presença. Esta é a voragem vertiginosa que vivemos.

Melissa Alves, Rodrigo Lopes e Walter Arcela
Curadores Residentes

“Desenhar os próprios pés na areia inexplorada (…)”

Exposição coletiva da 5ª edição do Programa de Residência Luis Maluf

Esse verso do poeta português José Régio pode ser uma boa imagem para um escrito que quer buscar palavras possíveis, e sabidamente precárias, diante da vontade de dar conta dos mundos que se movimentam em uma residência artística: pisar em um novo espaço, com pessoas novas, e o desafio de pensar a si, a sua produção e o seu tempo com outros criadores que estão no meio da mesma força que movimenta os dias e as noites.

Residência, de onde entendo, é lugar de experimentação, encontro, troca e risco. O imprevisível está sempre à espreita. O artista toma o lugar de um funâmbulo, com o corpo em deslocamento sobre uma corda estendida sobre um vão tão perigoso quanto cheio de fascínio.

Ao ser convidado a coordenar essa edição da residência promovida, já há alguns anos, pela galeria Luís Maluf e que vem contando com a parceria com o Sertão Negro, uma outra figura criadora se apresentava como uma presença quase óbvia: pessoas curadoras em estado de presença constante com os artistas em residência. Ali, no ateliê temporário, a pessoa curadora tem uma oportunidade rara de fazer aquilo que considero o ato máximo desse profissional: o fino aprendizado de estar junto. Estar junto com artistas e entender que, por vezes (muitas), o melhor que um curador pode fazer é ficar calado, em silêncio ativo, com seu caderno, com a dúvida que virará questão quando chegar o delicado momento de falar.

Cada proposição exposta aqui traz consigo a trajetória do antes, atravessada pelos estremecimentos vindos do “instante já” que se impôs nos últimos dois meses.

O que agora se vê pelas paredes nos convida a entender os trabalhos que aqui estão quase como índices que nos levam ao que está muito além da própria coisa.

Coube a mim, muitas vezes, olhar de longe a paisagem e todos que se movimentavam nela. Escolher o momento de intervir e a hora de apenas estar ao lado e ver as coisas acontecendo pelos laços que se estabeleceram. Conversas ao pé do ouvido, encontros coletivos, anotações e, em alguns momentos, ser alguém que está presente para desestabilizar algumas certezas, mesmo que seja para que se volte a elas com maior convicção. Uma volta que já não encontra mais as coisas onde estavam antes.

Entre objetos outrora guardados e agora reapresentados, terras distantes que refazem o chão de outras geografias, dilatações de tempo, objetos que insistem em permanecer, palavras e frases que se inscrevem no construído, cosmologias próprias e herdadas, álbuns rasgados pelo tecido diário do social, paisagens que estabelecem um horizonte tão próprio a esse espaço, a exposição Voragem e Vertigem é um pouco do que essas 15 pessoas escolheram viver juntas. E talvez esse seja o trabalho a ser feito: estar com o outro e tentar provocar espaços que entendam a criação como forma de inventar mundos que escapem das bombas que explodem em um contemporâneo cheio de disputas que levam ao limite a compreensão do que é/era ser humano.

Igor Simões
Curador e coordenador da edição 2026 da residência Luis Maluf.

[Pessoas artistas residentes]

Alisson Damasceno
Andrea Lalli
Arthur Siebra
Aura Aoru
Catarina Dantas
Dara
Crux
Felipe Seixas
Luara Macari
Marcelo Ramalho
Nita Monteiro
Vanessa Acioly

[Pessoas curadoras residentes]

Melissa Alves
Rodrigo Lopes
Walter Arcela