Exposição Coletiva
24 de Janeiro de 2026 a
11 de Março de 2026
Galeria Luis Maluf
Rua Peixoto Gomide, 1887
Jardins, São Paulo, SP
O interior de toda caverna guarda, em si, um abismo. Uma zona limítrofe, perímetro delineado, forma trôpega capaz de dar contorno aos lábios do grande oceano do infinito que há na profundidade de um precipício qualquer.
No fundo do escuro – no fundo de tudo, tudo – há sempre uma série de imagens que esculpem-se de maneira autônoma e involuntária, feito desenhos da terra, visões dos deuses e das deusas que outrora pelas bandas de cá estiveram. No fundo do abismo que há dentro de toda caverna, há sempre um silêncio prenho de caos, uma espécie de cinema natural, um espetáculo de formas, cores e luzes.
Lá no fundo do fundo, revelam-se imagens que, acumuladas e sobrepostas, anunciam ainda outras mais, multiplicam-se, mergulham concomitantemente em direção a imensidão.
II.
A divagação poético-especulativa acima nos introduz ao universo das obras de João Nascimento e Raphael Oboé. Através de diferentes práticas e abordagens, ambos os artistas dialogam entre si ao passo em que pintam e esculpem seres e criaturas ora humanos ora animais e, ao fim, híbridos poéticos que fogem à qualquer capacidade de categorização.
Em suas pinturas, Nascimento concebe criaturas que, como o próprio artista define, são “corpos celestes”. Híbridos entre o humano e formas orgânicas, suas telas funcionam como habitat natural de criaturas que transitam fluidamente por definições e hierarquizações de toda sorte.
Evocam o mundo natural, também, por suas texturas espessas de marrom, cobre e tons similares, nos recordando do aspecto terreno que tais corpos celestes possuem, antes de tornarem-se, efetivamente, protagonistas do corpo da obra do artista.
III.
Ainda de modo retrospectivo ao parágrafo inicial deste texto, conseguimos encontrar, nos seres animais e outros híbridos de Raphael Oboé, mais um espectro daquilo que poderia ter tornado-se ideia e matéria a partir de um abismo fundo do mundo, de um lugar ancestral por nós já hoje desconhecido.
Ou, se possivelmente vislumbrado, seria este lugar o território profícuo para a vida das criaturas de Oboé, aqui apresentadas em conversa ativa com as figuras de Nascimento. Adensando a dimensão arqueológica-natural dos trabalhos aqui reuniudos, as esculturas de Oboé parecem nos lembrar de artefatos históricos tais como vestígios mineirais do mundo animnal que, se vistas em conjunto com suas pinturas de Nascimento, nos convidam a adentrar a caverna (e o abismo!) por nós sugerido.
Victor Gorgulho









