Exposição Individual
07 de novembro a 14 de dezembro de 2026
Galeria Luis Maluf
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP
Um olhar sobre o tédio
O libertino não triunfa apenas porque goza, mas porque debocha do próprio prazer como um bom gozador.
Porquanto o temível triunfo do desejo, diria Freud, resulta inevitavelmente em tédio, melhor do que pateticamente insistir em alguma potência do desejo é gozar da impotência do tédio – e debochar de todas as formas de amor através de uma pintura da débauche.
Mas de onde vem esse deboche? No mesmo êxtase de Willem de Kooning e de Chaïm Soutine, que penetram a fronteira entre o figurativo e o abstrato até que o figurativo se contorça em gozo abstrato, a pintura de Daniel Lannes afirma seu caráter único no debochado intercurso entre o belo e o bizarro, entre o sagrado e o profano, entre o sensual e o grotesco, entre a reverência pelo cânone histórico e o cômico teatro do patético – erotizando e excitando a coincidentia oppositorum até o limite, até que a tensão erótica se dissolva numa violenta harmonia que convoca o olhar do espectador ao gozo do deboche universal. Destarte, a pintura de Lannes faz surgir o seu verdadeiro protagonista:
Desde a série Safe Sex, a libertinagem de Daniel Lannes é uma metaficção do voyeur: seu principal objeto não são os corpos nus, mas o metaficcional objeto-olhar do espectador. Na debochada pintura da coincidentia oppositorum, quem triunfa não é o desejo do pintor – malogrado em debochado tédio! –, mas o desejo do Outro: o olhar-desejo do espectador pintado no objeto-olhar que contempla a excitante contradição de sua própria sombra.
Em Tédio, desvela-se uma genealogia desse objeto-olhar, desde a sua origem divina em Adão, o primeiro libertino entediado. Abundam corpos nus no paraíso, mas a pintura de Lannes revela que a verdadeira beleza do sagrado está na sua profanação por um olhar invasivo: o olhar do espectador na Galeria de Arte do Éden.
Daniel Silva de Malafaia