Exposição Individual
27 de junho a 16 de setembro de 2026
Galeria Luis Maluf
Rua Peixoto Gomide, 1887
Jardins, São Paulo, SP
A chama que apaga, acende também
O samba Sempre Acesa, conhecido com o grupo Quinteto em Branco e Preto com participação de Beth Carvalho, foi composto por Luiz Carlos da Vila em parceria com o cantor e compositor Sombra. A canção, que foi lançada no ano de 2000 no álbum Riqueza do Brasil, trata, ao mesmo tempo, de uma postura madura diante do fim e da esperança nos recomeços.
A letra canta a compreensão de um amor que se findou e cumpriu seu papel, os caminhos que seguem e a capacidade de amar novamente. A crescente na voz da intérprete ao cantar que a gente tem é que tentar ser feliz é acompanhada pelo som da cuíca que, melancolicamente, revela nuances da complexidade dessa simples tarefa que é viver e renovar as possibilidades de alegria.
Guilherme Santos da Silva, pintor, reconhece na cadência do samba e nas letras que formam a canção, uma compreensão de seu ofício, o ritmo que toma os dias e relembra os caminhos que o corpo transforma em gestos na tela. O artista olha para as riquezas do Brasil e, assim, volta sua atenção para os percursos, condições e operações que tornam possível o ofício do pintor. Em sua prática, a técnica não se restringe a um conjunto de procedimentos nem aos limites dos gêneros pictóricos ou dos modos de representação. Ela se apresenta como um campo de tensão capaz de confrontar modelos estabelecidos de tradição.
Em Sempre Acesa, primeira individual na Galeria Luis Maluf, Guilherme Santos da Silva dá continuidade ao seu projeto poético que entende a geometria como um campo de articulação entre a experiência biográfica – individual e compartilhada – e a construção visual.
Outro dia já vem.
As nuances dos tons de azul se revelam diante dos nossos olhos e aos poucos, ao sabor do vento, vamos percebendo o movimento que a pintura Sempre Acesa guarda. Me coloco diante da obra que empresta o título da exposição como quem observa um imenso corpo de água ao amanhecer: o horizonte se revela na chegada da aurora. A luz que aponta o início da manhã se anuncia pela sugestão da gradação de cores e nossas pupilas vão se familiarizando com os gestos do artista na superfície e alcançando, sem pressa, as nuances, relações cromáticas e a fatura que Guilherme, pintor de ofício, nos deixa ver.
Enquanto eu puder sonhar, Eu não vou desistir.
A pintura, para além do trabalho e linguagem, se revela também como um ato de renovação e, por isso, insistência. Guilherme Santos Silva sintetiza paisagens e sentimentos, a busca de um lugar comum e o dinamismo do vento, em pinturas que são gestos de fé na vida e na arte: sempre acesa, chama que se renova.
Lorraine Mendes