Exposição Individual
22 de agosto a 23 de setembro de 2026 de 2026.
Galeria Luis Maluf
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP
La galaxia entera cabe en una gota de saliva
Una gota de saliva ocupa la Quinta Avenida
La Quinta Avenida cabe en un piercing
Y un piercing ocupa una pirámide
(La Yugular, Rosalía)
A recente produção de Fernanda Pompermeyer (1993, Curitiba, Paraná) se localiza em um “espaço-entre”, uma linha tênue que separa e, ao mesmo tempo, integra a vastidão do universo astronômico e a pequenez do mundo terreno. A artista nos apresenta formas como nuvens, estrelas e cometas que, quando agrupadas, resultam em peças que figuram corpos celestes, constelações, galáxias e cenas um tanto oníricas. Mas há também um interesse pela delicadeza do mundano, por esse universo miúdo e vivo, composto por paisagens onde convivem animais, flores e frutos. Para criar essas peças, que remetem tanto ao que há de mais grandioso e infinito quanto àquilo que nos é próximo e cotidiano, a artista se utiliza da visualidade do banal e do acessório: o universo do bibelô, do ornamento, daquilo que não tem função alguma além de adornar.
Mas, enquanto o bibelô, como o conhecemos, nasce de um processo de produção massificado que tem como objetivo criar peças uniformizadas, Pompermeyer busca imprimir na cerâmica a sua gestualidade, ressaltando a imperfeição das marcas do fazer manual que o processo industrial tende a planificar. Por isso, suas peças se constituem a partir de fragmentos, cacos e pequenas peças que são trompe-l’œil de louças quebradas, que a artista utiliza em encaixes, recompondo-as até criar imagens dinâmicas e complexas, de dimensões variadas.
Assim como as cerâmicas, são composições orgânicas as colagens em papel que apresenta pela primeira vez. Esse novo tônus de sua produção nasce principalmente de sua temporada recente em uma residência artística no Japão, de onde também vêm os papéis que utilizou para esses trabalhos. Neles, pedaços de embalagens e folhas de presente misturam-se a papéis nobres, resultando em imagens que formam um delicado jogo de abstração e apresentam ao universo bidimensional uma lógica até então explorada apenas tridimensionalmente.
Nesse sentido, “Uma coisa leva à outra”, título da mostra, é uma metáfora sobre a experiência de traduzir um mesmo processo em diferentes linguagens, mas também um comentário sobre a organicidade do pensamento e da maneira de compor esses trabalhos. Se, nas cerâmicas, a artista parte de pequenos fragmentos para construir imagens, nas colagens esse mesmo princípio se desdobra sobre o plano, fazendo com que recortes e sobreposições criem novas tonalidades e texturas. Em ambos os casos, é a partir da associação entre coisas aparentemente distantes que se constitui seu campo de experimentação, sempre em expansão: um universo que, assim como o celestial, tem em cada fragmento, em cada partícula de matéria, uma parte de um todo.
Thierry Freitas