Feira Nacional

27 – 31 de maio de 2026

Booth A1
Mercado Livre Arena Pacaembu

A Galeria Luis Maluf participa da ArPa 2026, no estande A1, com trabalhos de Arthur Siebra e Raphael Oboé. Enquanto Arthur elabora narrativas simbólicas sobre a condição humana por meio de paisagens de atmosfera mística, vinculadas ao imaginário brasileiro e nordestino, Oboé investiga a ancestralidade latino-americana através da cerâmica, resgatando memórias familiares e refletindo sobre processos de miscigenação e apagamento identitário. Em ambos, a arte surge como espaço de reconexão entre experiência íntima, território, espiritualidade e história coletiva.

Apresentamos também uma seleção especial de obras do artista Bu’ú Kennedy em diálogo com peças de mobiliário da coleção Art of Living, de nossa parceira Bottega Veneta, que evidenciam o trabalho artesanal em couro feito à mão.

Exposição Individual

16 de maio a 08 de agosto de 2026.

Galeria Luis Maluf
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP

Texto curatorial

“Gostaria de abordar a importância de estarmos atentos ao invisível, porém sensível: a energia. Aquilo que não vemos (e sobre o que não falamos) determina muito do que fazemos e criamos. Gostaria de oferecer às pessoas ferramentas para que possam perceber e melhorar o fluxo de energia.” JV

A obra de Janet Vollebregt assemelha-se a uma força de Coriolis interagindo com a circulação atmosférica global. Com a exposição Fluxos, ela imerge o público numa obra de arte participativa onde nos fala de energia regenerativa. Esta arquiteta de formação sabe como ninguém se apropriar dos espaços, nos quais as instalações e esculturas apresentadas são odes às filosofias orientais, combinadas com o espírito das pedras, ou mesmo com a revolução neoconcreta humanista e sensorial brasileira.

“Nesta exposição, gostaria de me concentrar no trabalho com energia, aprimorando o fluxo energético tanto no espaço quanto nas pessoas que o ocupam, usam ou transitam por ele. Este sempre foi o tema principal do meu trabalho, desde que cursei Arquitetura na Universidade de Tecnologia de Delft. Além da Arquitetura, estudei Feng Shui chinês (funcionamento da energia no espaço) e Jin Shin Jyutsu japonês (funcionamento da energia no corpo e ao seu redor), o que me levou a estudar também filosofia e religiões japonesas. Meus trabalhos carregam e comunicam influências desses estudos.” JV

A visão da artista para essa exposição de tipo museal é uma verdadeira jornada que, além do poder estético das obras apresentadas, oferece uma experiência sensorial, distanciando os visitantes do cotidiano e conduzindo-os ao espiritual. Da entrada da galeria com o “Jin Shin Jyutsu Parlour” (Salão de Jin Shin Jyutsu) aos “Prayer wheels” (Cilindros de Oração) e seus “Energy benders” (Dobradores de Energia), ela nos fala de uma arte que se funde com a vida e o corpo.

“Meu trabalho oferece ferramentas para tomar consciência do mundo energético” JV

Em seu fluxo criativo, permeado por referências filosóficas chinesas e japonesas, sua imersão no Brasil faz com que, apesar de não estar intimamente familiarizada com a obra da grande Lygia Clark (1920-1988), a obra de Janet segue o mesmo espírito. Assim como essa figura fundamental da arte contemporânea brasileira, Janet busca fazer de sua obra um organismo vivo, e não um mero objeto estático. Tanto Lygia quanto Janet redefinem a arte ao transformar o espectador passivo em participante ativo, colocando a interação sensorial e corporal no centro de seus trabalhos. Seus objetos relacionais visam “desmistificar” a arte, conectando-a simultaneamente a uma filosofia civilizacional.
Com a exposição Fluxos Janet desafia as fronteiras artísticas, psicológicas e sociais por meio de experiências sensoriais e relacionais. Ela promove situações que envolvem os participantes em uma relação íntima com seus objetos (Salão Jin Shin Jyutsu, cilindros de oração, João Zen, etc.), incentivando a reconexão consigo mesmo e com os outros. Sua abordagem participativa está enraizada em um contexto político e estético de libertação corporal e expressão individual, libertando a expressão artística para transformar o cotidiano.

Talismã
Janet menciona a palavra talismã ao falar sobre seus cilindros de oração. A filosofia por trás de um talismã reside na canalização de energias benéficas e na materialização de uma intenção ou desejo, atuando como uma ponte entre o mundo material e planos superiores ou sagrados. A exposição de Janet Vollebregt foi concebida, como um talismã, para atrair, proteger e realizar um convite para que o público recarregue as suas energias. Suas esculturas e instalações visam interagir com forças ocultas, como contratos entre humanos e ‘divindades’ (fluxos de energias positivas). As obras que Janet apresenta são ferramentas para a emancipação pessoal, destinadas a ajudar a dissipar certas dúvidas e a forjar proteção psicológica. Fluxos é mais do que uma exposição, é um poderoso manifesto para uma civilização em declínio.

Marc Pottier
Curador

Exposição Coletiva

08 de maio a 17 de junho 2026

Galeria Luis Maluf
Rua Peixoto Gomide, 1887
Jardins, São Paulo, SP

Confira, em nossa unidade Jardins, uma mostra especial realizada em parceria com a Dobra Gallery, galeria itinerante brasileira de arte e design.

Como parte de um grupo mais amplo que também inclui a casa de leilões brasileira Leilão Design, a Dobra atua como o braço dedicado à prospecção de obras, vendas privadas, parcerias institucionais e workshops. Essa estrutura dual permite ao grupo conectar o dinamismo do mercado de leilões com oportunidades personalizadas e orientadas por relacionamento, ampliando o alcance e o impacto da arte e do design brasileiros no cenário internacional.

A exposição propõe um diálogo entre obras do acervo da Galeria Luis Maluf e um mobiliário cuidadosamente selecionado entre o que há de mais relevante no mercado de design moderno. Descubra trabalhos de Aline Moreno, Daniela Busarello, Edu Silva, Fernanda Pompermayer, Guilherme Santos da Silva, Janet Vollebregt, Karola Braga, Shizue Sakamoto e Zanini de Zanine, em articulação com peças de mobiliário assinadas por Carlo Hauner & Martin Eisler, Joaquim Tenreiro, José Zanine Caldas, Sérgio Rodrigues, entre outros.

Feira Nacional

08 – 12 de abril de 2025

Booth G4
Bienal de S. Paulo – Ibirapuera

SP-ARTE 2026

A apresentação da Galeria Luis Maluf na SP-Arte 2026 parte de um gesto contínuo: construir espaço para artistas cujas práticas tensionam o presente e deslocam expectativas formais, estéticas e simbólicas.

A seleção propõe encontros entre diferentes gerações e modos de fazer, nos quais a matéria incorpora pensamento, o gesto reconfigura a linguagem e o risco se estabelece como estrutura. Reúnem-se obras que não buscam consenso, mas investigação — sobre imagem, corpo, espaço e permanência. Ancorada nos pilares de educação, fomento e incentivo, a galeria reafirma sua atuação como campo de escuta e articulação entre artistas, públicos e narrativas que escapam ao lugar-comum.

Neste ano, a Luis Maluf inicia uma parceria com a Bottega Veneta, que apresenta, no espaço da galeria, uma seleção de peças de mobiliário de sua coleção Art of Living. A iniciativa marca a introdução oficial desse segmento da marca no Brasil, evidenciando a expansão de sua atuação para além da moda. Desenvolvidas a partir do trabalho artesanal em couro — elemento central da casa italiana —, as peças ocupam o espaço em diálogo com a produção artística exibida. A proposta constrói uma narrativa que aproxima design e arte contemporânea, destacando o valor do fazer manual e da materialidade.

No estande G4, a galeria apresenta obras de Aline Moreno, Antonio Bokel, Bruno Vilela, Bu’ú Kennedy, Daniela Busarello, Deco Adjiman, Delson Uchôa, Edu Silva, Fernanda Pompermayer, Finok, Guilherme Santos da Silva, Janet Vollebregt, Karola Braga, Leandra Espírito Santo, Raphael Oboé, Shizue Sakamoto e Vhils.

Exposição Individual

28 de março a 05 de maio de 2026

Galeria Luis Maluf
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP

A Suspensão da Descrença

Com texto curatorial de Marcelo Coutinho, a exposição A Suspensão da Descrença apresenta a nova série de trabalhos do artista visual pernambucano Bruno Vilela. As obras falam do duplo olhar, dos reflexos e da integração entre os opostos. O espaço arquitetônico como personagem, animais misteriosos e luz dramática. A profundidade da cor. A dimensão cinematográfica na pintura. A poética do espaço.

Catálogo da exposição

Residência Artística 2026

07 a 21 de Março de 2026

Galeria Luis Maluf
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP

Voragem e Vertigem

À beira do mar, diante da sua imensidão, vemos um movimento em espiral. Hipnotizante, esse redemoinho parece sugar tudo ao seu redor, arrastando diferentes matérias para o fundo. Por um momento, estamos suspensos no seu mistério, deslumbrados com a sua força. Antes de mergulhar, olhamos para esse abismo: ele nos olha de volta. Voragem é o nome desse fenômeno que emerge das profundezas das águas. Vertigem é essa sensação que nos inunda por meio da nossa própria imersão. Essas imagens nos dão pistas e nos aproximam da experiência vivida pelos artistas e curadores durante a 5ª edição da Residência Artística Luis Maluf.

Entre a força da voragem e a desorientação da vertigem, cada artista se dedicou a mergulhar na sua poética, investigando suas práticas e pesquisas. Esse mergulho, profundo e ora íntimo, ora partilhado, só pode ser possível com a tomada de fôlego. Para viver em voragem, é preciso, primeiro, reconhecer a existência desse movimento e, a partir dela, tomar fôlego diante do redemoinho que aqui surge como metáfora à prática artística. Decerto, diante da particularidade técnica, temática e territorial de cada um dos doze artistas, somada a nós três curadores, os diálogos são fugidios, produzindo avizinhamentos de acordo com proximidades ou distanciamentos, numa polifonia irregular.

Ainda assim, podemos apontar, a partir das obras, linhas de força que versam sobre paisagem e pertencimento, memória e fabulação, desejo e política dos afetos, resiliência e utopia. Em certos momentos, houve uma vertiginosa experimentação corporal, onde mãos, pele, gestos e materialidades estão cravados na superfície de suas pesquisas. Em outros, acolhe-se o turbilhão da voragem, num exercício de partilha e de silêncio, de inquietudes e de pulsação do novo, o qual nos leva a buscar novos horizontes e instaurar novas dúvidas que reverberarão para além deste momento de residência.

Nenhuma mostra dá conta de instanciar as minúcias da vivência em ateliê, na qual a imaterialidade do convívio e a contaminação coletiva, as atividades e os encontros propostos, não são representados senão pelo lampejo de uma vertigem. O desassossego transformador que é a voragem exige de nós respiro e presença. Esta é a voragem vertiginosa que vivemos.

Melissa Alves, Rodrigo Lopes e Walter Arcela
Curadores Residentes

“Desenhar os próprios pés na areia inexplorada (…)”

Exposição coletiva da 5ª edição do Programa de Residência Luis Maluf

Esse verso do poeta português José Régio pode ser uma boa imagem para um escrito que quer buscar palavras possíveis, e sabidamente precárias, diante da vontade de dar conta dos mundos que se movimentam em uma residência artística: pisar em um novo espaço, com pessoas novas, e o desafio de pensar a si, a sua produção e o seu tempo com outros criadores que estão no meio da mesma força que movimenta os dias e as noites.

Residência, de onde entendo, é lugar de experimentação, encontro, troca e risco. O imprevisível está sempre à espreita. O artista toma o lugar de um funâmbulo, com o corpo em deslocamento sobre uma corda estendida sobre um vão tão perigoso quanto cheio de fascínio.

Ao ser convidado a coordenar essa edição da residência promovida, já há alguns anos, pela galeria Luís Maluf e que vem contando com a parceria com o Sertão Negro, uma outra figura criadora se apresentava como uma presença quase óbvia: pessoas curadoras em estado de presença constante com os artistas em residência. Ali, no ateliê temporário, a pessoa curadora tem uma oportunidade rara de fazer aquilo que considero o ato máximo desse profissional: o fino aprendizado de estar junto. Estar junto com artistas e entender que, por vezes (muitas), o melhor que um curador pode fazer é ficar calado, em silêncio ativo, com seu caderno, com a dúvida que virará questão quando chegar o delicado momento de falar.

Cada proposição exposta aqui traz consigo a trajetória do antes, atravessada pelos estremecimentos vindos do “instante já” que se impôs nos últimos dois meses.

O que agora se vê pelas paredes nos convida a entender os trabalhos que aqui estão quase como índices que nos levam ao que está muito além da própria coisa.

Coube a mim, muitas vezes, olhar de longe a paisagem e todos que se movimentavam nela. Escolher o momento de intervir e a hora de apenas estar ao lado e ver as coisas acontecendo pelos laços que se estabeleceram. Conversas ao pé do ouvido, encontros coletivos, anotações e, em alguns momentos, ser alguém que está presente para desestabilizar algumas certezas, mesmo que seja para que se volte a elas com maior convicção. Uma volta que já não encontra mais as coisas onde estavam antes.

Entre objetos outrora guardados e agora reapresentados, terras distantes que refazem o chão de outras geografias, dilatações de tempo, objetos que insistem em permanecer, palavras e frases que se inscrevem no construído, cosmologias próprias e herdadas, álbuns rasgados pelo tecido diário do social, paisagens que estabelecem um horizonte tão próprio a esse espaço, a exposição Voragem e Vertigem é um pouco do que essas 15 pessoas escolheram viver juntas. E talvez esse seja o trabalho a ser feito: estar com o outro e tentar provocar espaços que entendam a criação como forma de inventar mundos que escapem das bombas que explodem em um contemporâneo cheio de disputas que levam ao limite a compreensão do que é/era ser humano.

Igor Simões
Curador e coordenador da edição 2026 da residência Luis Maluf.

[Pessoas artistas residentes]

Alisson Damasceno
Andrea Lalli
Arthur Siebra
Aura Aoru
Catarina Dantas
Dara
Crux
Felipe Seixas
Luara Macari
Marcelo Ramalho
Nita Monteiro
Vanessa Acioly

[Pessoas curadoras residentes]

Melissa Alves
Rodrigo Lopes
Walter Arcela

Exposição Coletiva

24 de Janeiro de 2026 a
11 de Março de 2026

Galeria Luis Maluf
Rua Peixoto Gomide, 1887
Jardins, São Paulo, SP

O interior de toda caverna guarda, em si, um abismo. Uma zona limítrofe, perímetro delineado, forma trôpega capaz de dar contorno aos lábios do grande oceano do infinito que há na profundidade de um precipício qualquer.

No fundo do escuro – no fundo de tudo, tudo – há sempre uma série de imagens que esculpem-se de maneira autônoma e involuntária, feito desenhos da terra, visões dos deuses e das deusas que outrora pelas bandas de cá estiveram. No fundo do abismo que há dentro de toda caverna, há sempre um silêncio prenho de caos, uma espécie de cinema natural, um espetáculo de formas, cores e luzes.

Lá no fundo do fundo, revelam-se imagens que, acumuladas e sobrepostas, anunciam ainda outras mais, multiplicam-se, mergulham concomitantemente em direção a imensidão.

II.

A divagação poético-especulativa acima nos introduz ao universo das obras de João Nascimento e Raphael Oboé. Através de diferentes práticas e abordagens, ambos os artistas dialogam entre si ao passo em que pintam e esculpem seres e criaturas ora humanos ora animais e, ao fim, híbridos poéticos que fogem à qualquer capacidade de categorização.

Em suas pinturas, Nascimento concebe criaturas que, como o próprio artista define, são “corpos celestes”. Híbridos entre o humano e formas orgânicas, suas telas funcionam como habitat natural de criaturas que transitam fluidamente por definições e hierarquizações de toda sorte.

Evocam o mundo natural, também, por suas texturas espessas de marrom, cobre e tons similares, nos recordando do aspecto terreno que tais corpos celestes possuem, antes de tornarem-se, efetivamente, protagonistas do corpo da obra do artista.

III.

Ainda de modo retrospectivo ao parágrafo inicial deste texto, conseguimos encontrar, nos seres animais e outros híbridos de Raphael Oboé, mais um espectro daquilo que poderia ter tornado-se ideia e matéria a partir de um abismo fundo do mundo, de um lugar ancestral por nós já hoje desconhecido.

Ou, se possivelmente vislumbrado, seria este lugar o território profícuo para a vida das criaturas de Oboé, aqui apresentadas em conversa ativa com as figuras de Nascimento. Adensando a dimensão arqueológica-natural dos trabalhos aqui reuniudos, as esculturas de Oboé parecem nos lembrar de artefatos históricos tais como vestígios mineirais do mundo animnal que, se vistas em conjunto com suas pinturas de Nascimento, nos convidam a adentrar a caverna (e o abismo!) por nós sugerido.

Victor Gorgulho

Exposição Individual

15 de novembro de 2025 a
18 de dezembro de 2025

Luis Maluf Galeria
Rua Brigadeiro Galvão, 996
Barra Funda, São Paulo, SP

Boca de Sol
Delson Uchôa

Boca de Sol propõe a pintura como organismo luminoso, um corpo que engole a cor e a converte em incandescência. Entre a geometria e o calor, o gesto e a febre, Delson Uchôa fabrica superfícies em metabolismo luminoso. Sua obra digere o legado modernista antropofágico e o devolve como luz localizada, uma energia que nasce da geografia e se distribui como clarão. Ver e engolir se tornam o mesmo ato.

Morando em Alagoas — um dos centros de maior luminosidade do Brasil —, o artista desenvolve o que ele próprio denomina autofagia: um processo em que a pintura devora a si mesma, digere o próprio tempo e o transforma em nova matéria. Essa operação metabólica, que faz das obras organismos em constante regeneração, também impulsiona a leitura curatorial de Boca de Sol: uma prática que pode ser pensada como solarfagia, quando a luz passa a ser a substância devorada. Aqui, é o sol que alimenta a pintura; ele a faz ferver, secar, queimar, arder em cor. A solarfagia é o modo como a obra se deixa atravessar pela geografia, metabolizando o calor, a radiação e o brilho, ultrapassando o limite visível.

No Brasil, a noção de antropofagia foi convertida pelo modernismo em metáfora de identidade nacional. A ideia de devorar o outro e transformá-lo em cultura “brasileira” criou um mito de origem que acabou reforçando hierarquias e silenciando as cosmologias que o gesto dizia evocar. Em Boca de Sol, essa herança é revisitada de modo oblíquo. A autofagia de Uchôa não devora o outro, mas o próprio tempo. A solarfagia se aproxima mais de uma irradiação, um processo de emanação. Se o modernismo transformou o ato de comer em discurso de poder, aqui o metabolismo da pintura dissolve o poder no calor. O que se digere não é diferença cultural, e sim luz, cor, poeira, o próprio espaço do mundo.

Essa relação com a luz se aproxima de uma heliófilia — o amor radical pelo sol e por seus efeitos, mas também por tudo o que cresce sob sua influência. A pintura de Uchôa parece possuir uma consciência heliotrópica, uma inteligência compartilhada entre seres, plantas, minerais e pessoas. A sabedoria das fibras, dos trançados e das matérias vegetais que compõem suas obras manifesta essa escuta ampliada, uma escuta que inclui o território como agente e não como cenário. O piripiri, o ouricuri, a carnaúba e outras fibras regionais são corpos pensantes, dotados de memória e plasticidade, que participam ativamente da produção das formas. A obra de Delson é, portanto, um sistema coletivo em que o gesto do artista se entrelaça ao trabalho artesanal, à ecologia e às inteligências vegetais que moldam a cor, o relevo e o ritmo da pintura.

Nessa dimensão das tramas e das fibras, ressoa uma reflexão em consonância com o pensamento de Dénètem Touam Bona e sua noção de sabedoria dos cipós — uma filosofia da ligação, do entrelaçamento, do conhecimento que cresce em espiral. Essa correspondência vibracional nos faz perceber que são as fibras, com sua flexibilidade, resistência e memória, que se expandem em direções imprevisíveis, tensionando o espaço e instaurando novas relações entre matéria e tempo. Mais do que suportes, elas atuam como infraestruturas de pensamento, linhas que articulam mundos, geografias e modos de saber.

O processo de Delson Uchôa se desenvolve também a partir do contato com artistas e artesãos que produzem as fibras e artesanias presentes em suas obras. Ainda que nem sempre nomeadas, essas presenças compõem o campo sensível do trabalho. Há, em sua prática, um reconhecimento implícito das múltiplas mãos e saberes que sustentam a materialidade da pintura, uma atenção aos modos de fazer que o antecedem e o ultrapassam.

Essas relações, contudo, não estão imunes às forças da globalização. Cidades inteiras do Nordeste e de outras partes da América Latina vêm sendo transformadas pela lógica de um consumo exacerbado, movido por materiais sintéticos, produtos baratos e descartáveis. O plástico e outras substâncias industriais ocupam o lugar das fibras naturais, dissolvendo tradições de trançado e cestaria que antes mantinham vínculos diretos com o território.

Na trajetória de Delson Uchôa há uma atenção constante a esses deslocamentos. Seu trabalho observa como essas transformações materiais afetam a paisagem, a cor e o ritmo do cotidiano, e como a estética local é lentamente absorvida por circuitos industriais que uniformizam e esvaziam as singularidades do fazer. Ao retornar a certas matérias e modos de feitura, o artista evidencia as tensões entre a vitalidade dos saberes manuais e o impacto do consumo acelerado sobre o território.

A essa consciência compartilhada soma-se uma intuição quase científica. As resinas, pigmentos e vernizes funcionam como neurotransmissores da luz, compondo uma rede sensorial entre humano, planta e mineral. É um pensamento que se aproxima das hipóteses de Sidarta Ribeiro sobre as múltiplas formas de consciência distribuídas na natureza. A pintura realiza, aqui, uma espécie de fotossíntese poética, transformando luz em cor e cor em energia.

Há, no interesse de Delson Uchôa pela luz e pela matéria, uma aproximação possível com saberes ancestrais que reconhecem nas plantas e substâncias caminhos para outras percepções, modos de ver luz e cor que não dependem do prisma solar. No entanto, é preciso reconhecer que essas formas de conhecimento pertencem a contextos específicos enraizados em cosmologias indígenas e afro-ameríndias que não podem ser deslocadas ou apropriadas.

A relação que se estabelece aqui é de fricção, não de equivalência. O trabalho de Uchôa se situa nesse limiar, onde a busca por compreender a luminosidade das coisas convive com a consciência das distâncias e dos limites que separam diferentes regimes de saber.

Em Uchôa, a cor tem temperatura, densidade e localização. A geografia se torna substância, e a matéria age como papiro vegetal, um suporte vivo colhido nas margens, onde a natureza é escrita e lida em brilho. Sua pintura é uma arqueologia expandida da luz, uma investigação sobre como o sol opera nas fibras, nos corpos e nas coisas. Sua formação em medicina deixa rastros na prática artística. A pintura é um tecido vivo sujeito a enxertos, cicatrizações e reaberturas. Cada retorno à obra é um procedimento clínico: oxigenar a cor, reativar a superfície, introduzir resinas e pigmentos como soro em uma carne luminosa. Uchôa entende o ateliê e as paisagens ao redor como descampados heliotrópicos — lugares onde o corpo sai do mofo e busca conhecimento solar.
O artista não pensa sua trajetória por fases, mas por parentescos: trabalhos são primos e primas, famílias erguidas por confluências. Um quadro dos anos 1990 pode receber novas camadas em 2005, 2015 ou 2024. Assim, cada pintura se mantém em trânsito, arquivando suas próprias metamorfoses. Há tintas caducas que se tornam exaltadas, cores desmaiadas que despertam, como se o tempo respirasse dentro da superfície.

Em Boca de Sol, essa pintura de metabolismo aberto é também uma reflexão sobre os limites da visão. Que luz é essa que não passa pelo prisma solar, mas ainda assim incide, vibra e afeta? Durante este processo, Delson Uchôa recordou a obra em néon de Bruce Nauman, The True Artist Helps the World by Revealing Mystic Truths [O verdadeiro artista ajuda o mundo revelando verdades místicas] (1967). Com o tempo, ele reformulou essa frase à sua maneira: “O verdadeiro artista é uma fonte luminosa para se espantar.” Mais do que uma citação, essa lembrança parece condensar o princípio que move sua pintura — a busca incessante por uma luz que não se explica.

Sem negar sua geração e as fontes que o formaram dentro da história da arte ocidental, como a geometria da Bauhaus, Uchôa cria uma coalisão entre essa herança e a geometria popular do Nordeste. Sua pintura é plana, expandida e objeto ao mesmo tempo, uma miragem que pensa o corpo como superfície que queima, que sente e que se transforma. Em sua carnosidade, a pintura respira o sol do lugar e o devolve como clarão.

Ariana Nuala
La Paz, Bolívia, 2025

Feira ArtPE

08 – 12 de outubro

Stand 42
Recife Expo Center_Cais Santa Rita, 156

A Galeria Luis Maluf leva à feira ART PE obras de artistas de diferentes formações e linguagens, com o intuito de debater as múltiplas visões da contemporaneidade, aproximando o público pernambucano de obras e artistas que expandem fronteiras estéticas e culturais.

Delson Uchôa e Fernanda Pompermayer exploram o potencial da matéria — tinta e resina, no caso de Uchôa; argila colorida e texturas orgânicas, no de Pompermayer. Ambos adotam processos manuais e experimentais que transformam o fazer artístico em um gesto quase ritual, aproximando suas obras de uma dimensão simbólica que ultrapassa o visual. Raphael Oboé também se insere nesse eixo, criando cerâmicas que dialogam com a terra, o corpo e a ancestralidade. A cerâmica, aqui, não é apenas forma: é território, é memória viva, evocando vínculos com práticas originárias e modos alternativos de conhecimento.

Artistas como Janet Vollebregt e Deco Adjiman ampliam o campo sensível ao incorporar espiritualidade, poesia e forças sutis em suas práticas. Vollebregt constrói esculturas e instalações com cristais e metais para interagir energeticamente com os espaços e os corpos, criando ambientes de cura e introspecção. Já Adjiman transforma caminhadas em poéticas visuais, nas quais objetos encontrados e palavras ganham densidade simbólica, convidando à contemplação do cotidiano como fonte de encantamento e reflexão.

A pintura também ocupa espaço relevante nesse grupo, com artistas como Guilherme Santos da Silva e Renato Rios. Ambos usam a cor para evocar atmosferas oníricas e estados de pertencimento. Guilherme parte da memória pessoal e da paisagem nordestina para compor cenas afetivas, enquanto Renato sobrepõe campos cromáticos para sugerir a complexidade do mundo sensível.